De quê é que falamos quando falamos de "povo basco" e da "vontade do povo basco"?
Concretamente: acho que corremos com freqüência o risco de usarmos o conceito "povo basco" e o conceito "vontade do povo basco" de maneira idealista e reificadora, imprudentemente nom análitica, arriscadamente simplificadora. E, por isso, nom realista, nom materialista, desorientadora e proclive a induzir graves erros na nossa prática.
Por exemplo: é um grave erro falarmos e pensar no "povo basco" sem levarmos em conta que "o povo basco" é umha formaçom social CONCRETA numha conjuntura histórica CONCRETA. Conjuntura em que está DIVIDIDO em classes ENFRENTADAS e que se acham EM LUITA. Esse facto, porque é um facto material e materialmente comprovável e nom umha opiniom, implica que NOM HÁ NEM PODE HAVER HOJE umha "vontade do povo basco" ÚNICA E UNÍVOCA. O que há é VÁRIOS projectos de "vontade do povo basco", propostos, formulados, publicitados, empurrados e mantidos por classes e fracçons de classe bascas EM FUNÇOM DOS SEUS INTERESSES DE CLASSE e para defender esses interesses de classe.
A burguesia basca. Quem e quantos som?
Principiemos por considerarmos em concreto o conceito à ínfima mas dominante e muito poderosa burguesia basca, a que possui o Capital, controla e gere a reproduçom da força de trabalho social, domina ou codomina os aparelhos do Estado, meios político-ideológicos (EL CORREO ESPAÑOL, EL DIARIO VASCO e EITB por citar apenas uns exemplos) e restantes instrumentos de poder. Classe burguesa que utilizando todos esses meios dirige de e para os seus interesses únicos a reproduçom alargada do Capital e, por isso, a vida colectiva que é supeditada em todos e cada um dos aspectos ao interesse básico da burguesia: a sua perpetuaçom como classe que explora o Povo Trabalhador Basco, que o oprime politicamente E O DOMINA CULTURAL E IDEOLOGICAMENTE.
Em Hego Euskal Herria a classe burguesa é composta directamente por 31.000 pessoas, um bocadinho mais de um por cento da populaçom do conjunto dos quatro herrialdes (Araba, Bizkaia, Gipuzkoa, Nafarroa). Mas o NÚCLEO DURO, a ALMA BURGUESA, os possuidores de empresas que exploram mais de cem trabalhadores, que controlam os recursos decisivos, que imponhem as condiçons às empresas mais pequenas, que tenhem preferências nos empréstimos financeiros e nos relacionamentos internacionais, É FORMADO POR MENOS DE MIL (1.000) BURGUESES. (A REDE BASCA VERMELHA tem o projecto de elaborar -e publicar na nossa web- a relaçom nominal de quem componhem esse núcleo e das empresas que directamente controlam).
Essa exígua minoria omnipotente, inacessível e intocável polos supostos "poderes democráticos", é poderosa nom apenas polos recursos de poder económico, social, ideológico, cultural e político que directamente controla. É-o aliás, e em medida muito importante, polo facto de a sua estreita e já mais do que secular aliança com: 1) bloco de classes dominante espanhol (de que de facto constitui umha das fracçons de classe mais importantes); e 2) as quase todopoderosas empresas transnacionais de que som sócios, sucursal e comissionistas.
Como é materialmente demonstrável, o projecto de "vontade do povo basco que essa classe burguesa (e sobretudo o seu NÚCLEO DURO) propugnava e trata de impor consiste em FAZER COM QUE OS BASCOS SE SINTAM CÓMODOS NA ESPANHA. Parte importante desse projecto consiste, como é óbvio, em conseguir que "a vontade do povo basco" exija A PAZ A QUALQUER PREÇO, embora seja como a franquista paz dos cemitérios. Que os rebeldes a Espanha se rendam e entregam as armas. Que a polícia "desarticule" a dissidência basca. Se for preciso, "desarticulando fisicamente os membros dessa dissidência.
O bloco social de apoio da burguesia basca
Por se fosse pouco o poder económico, social, ideológico, cultural e político que a burguesia basca possui, CONTA ALIÁS COM UMHA MINORITÁRIA MAS SIGNIFICATIVA PORÇOM DO POVO BASCO. Que lhe serve de parapeito, "longa manus", "massa de manobra" e ferramenta de controlo e repressom sobre o Povo Trabalhador Basco.
É um bloco social de apoio composto, além de polos seus próprios filhos e cônjuges, por reduzidas fracçons de classe assalariadas situadas entre o Capital em si e o grosso do Trabalho.
Altos técnicos e funcionários, militares e polícias, gerentes, managers, capatazes e outras alimárias servis com sobresoldos especiais dependentes da sua incondicional colaboraçom. Mercenários que, apesar dos seus esforços, quase nunca chegarám a poderem converter-se em capitalistas, pois nom acumularám o necessário para comprarem e explorarem trabalhadores em empresas próprias. Excepto se se integrarem na burguesia mediante matrimónio, acesso que está zelosamente vigiado por essa burguesia que se reproduz quase endogamicamente.
Essas pequenas fracçons, atrapadas entre o quero e nom podo, corroídas polo ódio antioperário e o fanatismo capitalista, "abaixoassinantes" de "Manifestos", integrantes de ONGs "pacifistas" e Foros de Érmua, nom estám integradas pola totalidade dos funcionários e técnicos, mas nom é descabelado estimar que sim polo seu quarenta por cento e praticamente polo cento por cento dos directivos e aproximadamente vinte por cento dos administrativos. Contando os seus filhos MAS NOM OS SEUS CÔNJUGES, formam por volta de sete por cento da actual populaçom basca.
Com curas, freiras, frades, "apadrinhados", corruptos, amigos e pessoas dependentes, polícias de todos os ladridos, professores, jornalistas, artistas, escritores e outros funcionários-intelectuais, etc., COMPONHEM AS MESNADAS FIÉIS AO CAPITAL E A "ESPANHA". Com estas mesnadas, essas fracçons e a burguesia em si, SOM ENTRE NOVE E ONZE POR CENTO DA POPULAÇOM DE EUSKAL HERRIA SUL.
Esta aliança de classes e fracçons à volta do NÚCLEO DURO da burguesia basca monopoliza: 1) o poder político e económico (incidindo directamente no uso repressivo das forças de ocupaçom e da força indígena sipaia da Ertzaintza); 2) a imprensa e os restantes meios de desinformaçom e propaganda com a única excepçom de dous jornais, EGIN e EGUNKARIA, e umha rádio, EGIN IRRATIA, e as duas preciosamente voluntariosas rádios livres); 3) as menos más zonas de residência, espagimento e lazer na poluída Euskal Herria, para nom falarmos das condiçons de trabalho. E, questom estratégica, o sistema educativo com a transcendência acumulativa que isso supom.
Necessito dizer que o projecto de "vontade do povo basco" que essa aliança de objectiva e subjectiva propom é o da burguesia basca?
Contemplemos agora o resto do povo basco, entre oitenta e nove (89) e noventa e um (91) por cento do povo basco. Quer dizer, o Povo Trabalhador Basco. Cujo grosso é constituído pola classe operária basca.
Como questom prévia devo aclarar que nesta análise da estrutura, dinámica e luita de classes do povo basco estou a utilizar o conceito de classe proposto polo documento de KAS de 1994 "O nosso presente, o nosso futuro" (cuja linha e argumentaçom constituem o eixo destas páginas). Na página 21 desse documento di-se:
"Som classe operária as trabalhadoras/es assalariados/as, aos que o capital rouba umha parte do seu trabalho nom pago, que estám excluídas/os do controlo da força de trabalho e a sua reproduçom e do controlo do capital constante e variável. Som classe operária as mulheres que com o seu trabalho doméstico e mediante a exploraçom patriarco-familiar sustentam a reproduçom psicossomática da força de trabalho social. Som classe operária as trabalhadoras/es empregados nos aparelhos burocrático-administrativos e político-ideológicos que carecem no entanto do mínimo controlo do destino e das decisons que a elas/es atingem. Som classe operária as pessoas dependentes por laços de sobrevivência às trabalhadoras/es das três categorias anteriores.